
Recupero aqui a crítica de Vitor Balenciano, a propósito do lançamento do novo álbum de Earl Zinger - "Speaker Stack Commandments", publicada no jornal Público, que li enquanto estava de férias. Excelente do ponto de vista do enquadramento musical e do seu autor.
"Rob Gallagher é uma das personagens mais fascinantes da música urbana inglesa das duas últimas décadas. A meio dos anos 90, com os Galliano, que liderava, conseguiu grande visibilidade, mas as exigências do sucesso, nem sempre límpidas, da indústria da música incomodaram-no e submeteu-se a um silêncio sabático, interrompido em 2000, quando regressou com os TwoBanks Of Four na companhia de outro renegado do período acid-jazz, o ex-YoungDísciples, Demus Harris.
Os Two Banks Of Four lançaram dois excelentes álbuns, Gallagher acompanha regularmente Gilles Peterson nas suas sessões DJ e até formou a sua própria editora, a Red Egyptian. Não é um caso de sucesso à escala global, longe disso, mas nas margens mais influentes da música urbana é alguém com uma reputação sólida. Numa conversa recente com o Y confessou que tinha recebido propostas tentadoras para reactivar os Galliano, mas recusou. Dir-se-ia que não tem muitas razões de queixa. Mas Gallagher não têm paciência para com os procedimentos rotineiros da indústria. É azedo com eles e faz questão de o mostrar.
Fá-lo através de Earl Zinger, uma personagem por si criada que nos faz confundir realidade com ficção, uma espécie de figura da sombra que parodia a realidade mais mesquinha. Era assim no seu divertimento de estreia, o álbum "Put YourPhazers On Stun Throw Your Health Food Skyward", de 2001, e volta a acontecer três anos depois num disco ainda mais iconoclasta que o primeiro, com Zinger a revelar uma refinada ironia na forma como vai desfiando as suas crónicas de costumes. Em termos sonoros, volta a ser um disco ecléctico, despido de grandes artifícios, que revela o habitual estilo "crooner" de Gallagher, as influências das músicas da Jamaica (reggae, dub e dancehall),os jazzismos frenéticos, as deambulações hip-hop quase imperceptíveis e as movimentações electrónicas ritmadas, tudo mastigado pelo computador, cruzando de forma delirante peças que teoricamente nunca conseguiriam coabitar harmoniosamente.
"Speaker Stack Commandments" é um disco de dança oblíqua que se dança com um sorriso nos lábios, como se tivesse feito por uma espécie de Tom Waits londrino, de atitude canalha e apetite pela farsa." Vitor Belanciano in Y - Público - 3 de Setembro de 2004
By da way a nota que ele lhe dá é um 7/10. Eu já ouvi algumas x o dito álbum, mas ainda não estou em condições para lhe atribuir uma nota. Fica para 1 dia mais tarde.