julho 20, 2004

Marosca

Ponto prévio: o meu nível de fé na actual Direcção do SCSalgueiros é nulo. Já os vi com reacções de fúria semelhante no calor do momento e os assuntos cairem no esquecimento. Em caso de dúvida vou sempre desconfiar da veracidade do que dizem.

A descida do SCSalgueiros ainda vai dar um pouco que falar. Os contornos do caso já me deixaram desconfiado quando nem a Liga referia em concreto que dívidas e em que montantes o clube estava devedor, nem o clube contestava directamente essas mesmas dívidas apresentando provas que tinha pago.
Comecei a ouvir falar em empréstimos e em aváis.

A questão é simples:
- os clubes pagam à Liga quotas, multas e taxas de inscrições de jogadores;
- se estes valores não estiverem regularizados antes do início da época seguinte o clube desce de divisão - foi assim que os clubes legislaram;
- se existirem decisões de tribunal a favor de ex-técnicos ou ex-jogadores, em casos em que reclamem indeminizações ou salários em atraso, os clubes ficam impedidos de inscrever jogadores - como existe um número mínimo para se inscreverem nas competições podem na mesma ficar condenados à descida por este motivo.

Na época passada o Salgueiros devia mais de 600 mil euros a ex-jogadores e estava impedido de inscrever jogadores. Só tendo 7 inscritos não tinha forma de participar na II Liga.
A 20 de Agosto a Liga emite um despacho a dizer que o Salgueiros depositou o $ na Liga para efectuar o pagamento aos jogadores a quem devia.
O Salgueiros inscreveu os seus novos jogadores e ficou assim habilitado a participar na II Liga.
Em Setembro o Salgueiros contrai um empréstimo com a Liga de aproximadamente o mesmo valor.
A semana passada o Salgueiros liquida cerca de 11 mil euros de multas, quotas e inscrições em atraso, no último dia do prazo.
Pressupoe-se que seja despromovido pelo não pagamento da outra tal dívida de mais de 600 mil euros.

Dúvidas:
- Será que no regulamento não está definido que tipo de dívida pode estar englobada nas causas para descida?
- Será que o Conselho de Justiça vai novamente virar o bico ao prego?
- Porque será que já ouvi várias vezes suspiros a pressionarem a Liga a dizer quem avalizou o tal empréstimo?
- Se é verdade que o $ do empréstimo nunca chegou a entrar (como refere a notícia em baixo), o cenário mais plausível parece ser: a Liga avançou com o $ para pagar aos jogadores e permitir que o Salgueiros inscrevesse os jogadores, tendo depois escriturado um empréstimo para oficializar a situação.
Contra mim falo: a que título a Liga de Clubes faz uma coisa destas???
- Que autonomia tem para emprestar $ a um clube e não a outros?
- Que parâmetros delimitam as situações em que se empresta?

Além de acabar com o meu clube, tenho a sensação que este caso vai manchar (mais e novamente) a credibilidade do futebol profissional em Portugal.

II DIVISÃO B - Salgueiros
Despromoção do Salgueiros envolta em polémica
A dança dos euros

A dívida que custou a descida resulta de um empréstimo para viabilizar a temporada anterior

VÍTOR SANTOS E BERNARDINO BARROS


A decisão da Liga Portuguesa de Futebol Profissional que conduziu à despromoção do Sport Comércio e Salgueiros à II Divisão B decorre da falta de pagamento de um empréstimo, cujos contornos estão ainda por esclarecer, mas indiciam uma "dança de euros", no mínimo, curiosa...

O Comité Executivo fundamenta a decisão na existência de dívidas ao organismo que tutela o futebol profissional, mas a verba reclamada, que ascende aos 700 mil euros - foi, numa primeira fase, liquidada pelo "histórico" de Paranhos em Agosto de 2003, a avaliar por um despacho da Liga a que o COMÉRCIO teve acesso, assinado, precisamente, pelo actual Director Executivo.

Todavia, em Setembro do mesmo ano, o Salgueiros contraiu um empréstimo junto da Liga de Clubes, cujo valor se aproxima da verba em causa. Existe escritura pública da transacção, que, supostamente, estará na génese de uma engenharia financeira que permitiu ao Salgueiros saldar as contas. No espaço de sensivelmente um mês, o clube regularizou a situação perante a Liga, inscreveu jogadores para enfrentar a época 2003/04 e voltou à condição de devedor, pois terá, alegadamente, recebido a verba liquidada!

Só que precisamente há uma semana, o terceiro clube mais representativo da cidade do Porto, que na época transacta foi quinto classificado na Liga de Honra, era informado da impossibilidade de participar nas provas profissionais, por não ter saldado as dívidas à Liga de Clubes, penalização prevista no n.º 1 do Art.º 35 do Regulamento de Competições.

A Liga invoca pagamentos em falta na ordem dos 700 mil euros, resultantes de um empréstimo que o Salgueiros deveria ter regularizado até ao dia 30 de Junho, conseguido, supostamente, para fazer face ao incumprimento de responsabilidades salariais com diversos profissionais.

Historiando, a 20 de Agosto de 2003, a Liga de Clubes emitia um despacho a informar que o Salgueiros tinha regularizado 635.802,37 euros, precisamente nesse dia, através de "depósito bancário".

Diz o despacho que, "no dia 20 de Agosto de 2003, foi entregue na Liga Portuguesa de Futebol Profissional, em vista a garantir por depósito bancário, por parte de Sport Comércio e Salgueiros, os créditos em dívida a cada um dos jogadores credores supra identificados", que, por razões óbvias, nos abstraímos de nomear. O parágrafo termina com a menção ao valor regularizado: "625.802,37".

O documento enumera ainda outras quantias liquidadas pelos salgueiristas, convidando os credores a apresentarem-se junto dos serviços da Liga para receber os valores em falta, o que possibilitou ao Salgueiros voltar a inscrever jogadores (ao tempo, estava impedido, por decisão da Comissão Arbitral Paritária) para assim poder participar no campeonato da Liga de Honra.

O despacho, composto por três páginas, encerra com a assinatura de Cunha Leal, Director Executivo, é emitido em papel timbrado da Liga, e, portanto, a sua legalidade é inquestionável.

Liga em silêncio
O que aconteceu posteriormente, está no segredo dos deuses, mas a verdade é que a descida de divisão do Salgueiros não é pacífica, e promete fazer correr muita tinta. O referido depósito foi, realmente, realizado, mas, um mês depois, a Liga "emprestava" ao Salgueiros um montante sensivelmente idêntico que, segundo fonte bem colocada junto do clube, nunca entrou nos cofres de Paranhos...

O nosso jornal tentou ontem, insistentemente, obter uma reacção da Liga de Clubes que, todavia, foi impossível registar.

Salgueiros recorre para o Conselho de Justiça da FPF e ameaça com "denúncia crime"

Considerada "irreversível" pela Liga de Clubes, a despromoção administrativa do Salgueiros irá ser avaliada pela Conselho de Justiça da FPF. Os "vermelhos" de Paranhos não desistem de disputar o campeonato da Liga de Honra, e fizeram chegar àquele órgão um recurso, fundamentado em diversos documentos, entre eles o despacho da Liga a que o COMÉRCIO teve acesso.

Contactado telefonicamente pelo nosso jornal, José António Linhares, presidente do Salgueiros, escusou-se a prestar declarações sobre o processo em causa, mas segundo um comunicado divulgado ontem, o recurso seguiu para a federação no dia 16. Depois da ameaça de "impugnar" os campeonatos, o Salgueiros volta à carga, ponderando a possibilidade de "apresentar denúncia crime contra os responsáveis pela decisão" de relegar a equipa para a II Divisão B.

Publicado por speculare em julho 20, 2004 05:17 PM
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