Depois de ouvir e reouvir os analistas e pensar um pouco no tema, não consigo deixar de pensar que a atitude de Durão Barroso é egoísta.
Ponderando vantagens e desvantagens a grande verdade é que 90% das vantagens revertem a nível pessoal para Durão e 90% das desvantagens claramente recaem no nosso país.
Senão vejamos o que ganha Durão:
Durão sobe ao topo de uma carreia política, especialmente para quem até já foi Ministro dos Negócios Estrangeiros e tem apetência natural para a política internacional. Acima disso só para Presidente da Nato, muito improvável, ou Presidente da República, o que nunca será para breve. Em termos de carreia e prestígio pessoal estamos conversados.
Durão escapa-se a algumas situações que variavam entre difíceis e muito, muito desgastantes. Necessidade de efectuar uma grande remodulação governamental, dando bem a entender a falência da política de vários Ministérios de relevo. Mais que provável derrota, provavelmente esmagadora, nas próximas eleições legislativas, se o Governo e a coligação que o sustenta não implodisse antes disso. Polémica na escolha do candidato à Presidência da Républica, que fica resolvida (ou mais perto de resolvida) com Santana Lopes no Governo.
Não tenho dúvidas que se afastar de tudo isto, incluíndo a crescente contestação social, para uma promoção é uma grande saída.
O que ganha Portugal?
Prestígio, o que é mais ou menos consensual.
Provável favorecimento de Portugal, sempre que possível. Este argumento não engulo muito, ou mesmo nada. Parece-me impensável que num cargo que se tem que assumir vincadamente independente possa existir quaisquer tipo de favorecimentos. Por essa ordem de razões Durão até tinha que "ajudar" quem o elegeu, que não foi Portugal com certeza.
O que perde Durão:
Pouco ou nada, tirando uma possível acusação de que abandonou o país num momento muito difícil, que poderá agravar-se consoante a passagem seja mais difícil ou não. Piorada quando se sabe que em circunstâncias idênticas Guterres recusou o cargo. O mesmo que Durão acusa de ter abandonado o país. Claro que para qualquer bom político desdizer-se um pouco e entrar em contradição não é assim tão grave.
E como fica o país:
Muito, muito complicado. O PSD está uma barafunda e não preparado para isto. As forças internas não estavam devidamente aquarteladas para esta batalha. A simples passagem de testemunho para Santana Lopes já se viu que terá enormes dificuldades. Mais, sabendo-se dos anticorpos que este tem dentro do seu partido e da postura quase sempre anti-coligação que assumiu.
Defende-se que a vontade popular tem que ser respeitada, sendo que o próximo Primeiro-Ministro deverá ser escolhido pela coligação, num congresso do PSD (como seria mais natural) ou por outro arranjo qualquer mais torpe. Mas será que alguém votou numa coligação? Não foi esta um arranjo pos-eleitoral?
No cenário de continuação sem eleições antecipadas, seguir-se-á uma inevitável enorme remodelação. Demorará meses até o novo Governo entrar em ritmo de cruzeiro. Se tiver tempo para isso. Existirá em 2 anos tempo suficiente para nomear um novo Governo e este ter uma intervenção minimamente consequente???
Imagine-se agora que o PSD não se entende, continuando-se a desrespeitar a figura constitucional do Presidente da Républica com cenários de facto consumado, e temos mesmo que avançar para eleições antecipadas. A vitória do PS será esmagadora, provavelmente maioria absoluta. Mas estará o PS pronto para governar? Na minha opinião longe disso. Internamente o líder é considerado fraco, tendo tido o papel de aguentar o período de oposição - a travessia do deserto. Sempre se esperou que no momento que as hipóteses de voltar ao Governo existissem, Ferro Rodrigues fosse substituído por alguém mais forte. António Vitorino é esperado em dia de nevoeiro... Mas para isto também não há tempo. Neste momento o que existe, é um partido com 4 ou 5 candidatos a líderes ainda sem forças avaliadas para o próximo congresso e muita confusão. Como poderiam formar agora um Governo consequente é, como diriam os ingleses, beyond me.
De todos os prismas, a evolução e governação do nosso país sofre um solavanco. Maior ou menor de acordo com a forma como se conseguir resolver este imbróglio. Aguardo que me convençam que as vantagens para Portugal desta nomeação compensem este solavanco.
Publicado por speculare em junho 29, 2004 10:27 AMjá tinha pensado colocar uma posta sobre este assunto, qd o futuro ficasse mais definido.
a minha opinião não anda longe da tua, bastante próxima aliás. de qq forma partilhá-la-ei daqui a 1s dias.
Afixado por: bitok em junho 29, 2004 11:17 AM