
Faço minhas as palavras do Expresso de 17/04/2004 - "sempre pertinentes recensões que nos chegam via e-mail da ananana" - e deixo-vos aqui parte do último email que enviaram:
"é a lei das compensações.
o livro, esse estandarte da alta cultura,
tem a pequena parcela dos 5% do iva,
mas, minhas senhoras e meus senhores...
o que é que arrasta multidões?
o que faz directos tv de horas pela noite dentro?
o que faz sair, em euforia, milhões de pessoas à rua?
como se consegue todas as capas dos jornais?
como se consegue esquecer o que interessa neste país?
pois é: é o futebol, é o porto... foi o mourinho.
imaginem o lançamento de um grande livro ter o entusiasmo popular da noite de quarta.
imaginem o anúncio do nobel de saramago ter ajuntamentos nos aliados,
na rotunda do marquês de pombal, nas várias capitais de distrito
e nas colectividade de emigrantes em frança e na suíça.
o livro apenas tem uma feira, preço fix e iva baixo - uma injustiça social.
hoje começa outro arrastador de multidões,
a maior exportação do brasil desde os futebolistas, dentistas e telenovelas:
o rock in rio em lisboa.
a semana passada, na nossa loja,
três simpáticos senhores visitaram-nos
tentando convencer-nos a ter no balcão merchandising do festival.
dificilmente aceitaríamos o que quer que fosse,
mas... aquelas fitas de pôr à volta do pescoço...
para pendurar "a" chave do automóvel... isso é que não!
mas, a nossa célebre simpatia fez com que recusássemos a oferta com gentileza,
justificando a nossa marginalidade face às dezenas de propostas dos palcos do rock in rio.
e aqui é que houve um problema: tanto as duas senhoras portuguesas,
como o senhor brasileiro (convém manter a identidade do rock in rio em todas as ocasiões),
não perceberam que raio de música teríamos ali para legitimar a nossa postura.
falámos que eram discos para uma minoria,
outros estilos de música com canais próprios de difusão, exibição e comercialização...
mas, nada... não percebiam.
no final, apenas confessavam, incrédulos: "música é música".
tentaram o 'touché' com... "e isto que está a dar? não é música?".
sim, magnetic fields é música, mas não estão no rock in rio em lisboa.
nem o nosso hip hop, nem a nossa electrónica (ter djs não ter electrónica!),
nem o nosso experimental, nem o nosso jazz, nem a nossa contemporânea,...
começamos hoje a travessia por entre isto tudo,
mas dentro de um mês já está tudo acabado.
mesmo a tempo das férias."