Manitoba & Four Tet:
Dan Snaith e Kieran Hebden são bons amigos mas mantêm projectos separados. Em comum o facto de produzirem alguma da música mais interessante do momento também designada como electrónica pastoral, folktronica ou post-electronica e que pode ser resumida na equação hip-hop + electrónica = folk + rock psicadélico + dream pop.
Manitoba .Up In Flames. . À primeira audição 'Up In Flames' revela-se um caleidoscópio impossível de absorver na integra. Uma amalgama de sons e ambientes espalhados em turbilhão como se o samplista brasileiro Amon Tobin resolvesse samplar apenas discos de rock psicadélico dos anos sessenta. Uma surpresa para quem só conhecia o disco de estreia 'Start Breaking My Heart', um álbum influenciado de forma óbvia pela música pachorrenta e contemplativa de grupos como os Boards of Canada ou os Plaid e pela electrónica mais ambiental de Aphex Twin. Mas após dois anos de silêncio e cansado de, nas suas próprias palavras .all this lazy, complacent, shitty electronic music., Dan Snaith reaparece com um disco que deve tanto à dream-pop dos Mercury Rev do inicio de carreira como ao mítico 'Loveless' dos My Bloody Valentine . juntamente com os ténis gazelle um dos ícones do livro de estilo do indie que se preze . como às estruturas pop psicadélicas dos Beach Boys. Utilizando uma mistura de equipamento analógico (órgãos Farfisa, glockenspiels), guitarras, flautas, vozes e ritmos digitais, Dan Snaith regressou possuído por um espirito de aventura e disposto a transgredir todas as regras. Ultrapassada a desconfiança inicial, .Up In Flames. revela-se, juntamente como os novos discos de Jaga Jazzist e Prefuse 73, como um disco essencial para perceber as últimas movimentações da música electrónica contaminada por influências exteriores à sua tradicional rede de cumplicidades.
Four Tet .Rounds. . O que têm em comum nomes como os de 50 Cent, Lightning Bolt, Zongamin, Jaylib e Akufen? À primeira vista muito pouco ou mesmo nada. Mas se dissermos que estes são alguns dos nomes que Kieran Hebden ouviu durante a gravação de 'Rounds' ficamos perto de resolver o puzzle que propõe aos seus ouvintes no seu terceiro disco de originais. 'Rounds' é uma intrigante combinação de electrónica, jazz, hip-hop instrumental e sons de instrumentos tradicionais. Até aqui nada de novo. Mas Kieran Hebden reutiliza elementos já conhecidos e desenvolve uma linguagem ambiciosa, deliberadamente livre de todas as amarras de estilo, como se quarenta anos após o free jazz fosse possível criar algo parecido com free electrónica. Movimentos rítmicos complexos inspirados no jazz, melodias hipnóticas . ouçam por exemplo os temas .My Angel Rocks Back And Forth. ou o soberbo .And Then All Look Broken Hearted. . sobrepostas por interferências provocadas por algum vírus informático que apenas afecta o mundo virtual dos laptops com coração partido, conjugados de uma forma tão natural como se harpas e samplers, vibrafones e máquinas de ritmos, címbalos e MPC's, tivessem convivido desde sempre. .Rounds. tem apenas quarenta e cinco minutos. Mas mais um vez se demonstra que os pequenos instantes - um disco, um fim de tarde interminável no verão, um som familiar, um cheiro ao acaso . são muitas vezes os únicos momentos capazes de prolongar um estado de felicidade pura e inocente que pensávamos só ser possível durante a infância.
Publicado por NunoP em junho 24, 2003 03:59 AM