Miguel Esteves Cardoso
Muito boa a entrevista ao MEC publicada no Blitz desta semana - ontem saiu o número mil, com edição a condizer e uma interessantissima lista de mil discos que revela, ainda que de forma implicita, que os melhores anos do Blitz já lá vão e foram algures durante a segunda metade da década de noventa com Jorge Manuel Lopes, Vítor Belanciano, Miguel Francisco Cadete e Rodrigo Affreixo em grande forma.
Três momentos:
A inconfundível impertinência
1 - 'A música pop, salvo certas excepções determinadas, é uma paixão de juventude. A melhor música é não só feita por jovens - como só é ouvida, como deve ser, por jovens. É preciso empenho; preocupação; entrega; insegurança; inocência; radicalismo; exclusividade.'
e uma clarividência notável; (para uma pessoa da sua idade - ahah ... que piada!)
2 - 'Como se mantêm uma paixão? Não se pode; é uma contradição. Claro que continuo a gostar e a ouvir mas, por muito agradável e reconfortante que seja o contínuo deslumbramento, lembro-me sempre dos dias em que ouvia as gravações dos Durutti Column ou dos Joy Division quando tinham acabado de ser feitas e da reavaliação terrífica e maravilhosa que provocaram nas minhas ideias e nos meus gostos da altura - e nada de pode comparar a isso. A música pop, quando é gradiosa, muda-nos. Tenho horror ao que seja «histórico» ou «de referência». A única maneira arrebatadora de ouvir música é pela primeira vez.
3 - 'Preciso de voltar a avaliar, como se pela primeira vez - ou seja, neste tempo - alguns dos discos que passam por ser essenciais, obras primas ou influentes. Com o horror à petrificação que temos, é altura de desenterrar o passado à luz não do passado, mas do presente. A chamada herança da música pop é, em larga medida, um barrete. Há um excessivo respeito. Por outro lado, há trabalhos que precisam de ser ouvidos, sem nunca realmente terem sido. A situação, não menos do que em 76 ou 81, precisa de uma sacudidela.'
No final as boas notícias: MEC vai voltar a escrever no Blitz. Parece-me uma óptima oportunidade para abalar anos e anos de convicções baseadas em compêndios de pacotilha mais os seus discos e artistas supostamente intocáveis.
Publicado por NunoP em dezembro 31, 2003 12:54 PM